Uma PME consegue hoje fazer vídeo com IA para o Instagram, o TikTok e os Reels de duas formas. A primeira, e quase sempre a melhor, é filmar com o telemóvel o prato, o quarto ou o produto verdadeiro e deixar a IA fazer o trabalho chato: cortar os tempos mortos, pôr legendas automáticas, passar para formato vertical. Faz-se com o CapCut, o Google Vids, o Canva ou o Descript, de graça ou por menos de 25 € por mês. A segunda é gerar o vídeo a partir de um texto ou de uma fotografia, com o Gemini, o Google Flow ou a Runway: dá clipes de 4 a 10 segundos, úteis para ambientes e transições, mas que não mostram o que o cliente vai encontrar. Em qualquer dos casos há três regras a cumprir: música com licença para uso comercial, autorização de quem aparece no vídeo e, desde 2 de agosto de 2026, indicação de que um vídeo realista foi feito com IA.
Este artigo compara as ferramentas, mostra um exemplo de custo, explica os cuidados legais e termina com uma rotina semanal para quem só tem um telemóvel. Para as fotografias e os cartazes, veja o guia de imagens para marketing com IA.
Editar ou gerar: qual escolher?
Num restaurante, num alojamento local ou numa loja, o que vende é o que existe: o prato a sair da cozinha, a vista da varanda, a peça na montra. Um vídeo gerado por IA pode ser bonito, mas mostra um prato que a cozinha não faz e um quarto que não é o seu. Se o cliente chegar e encontrar outra coisa, perdeu-o (e pode ter um problema de publicidade enganosa).
Por isso, a regra prática é simples:
- Editar vídeo real com IA serve para a maior parte do que uma PME publica: o prato do dia, o check-in, a novidade na loja, os bastidores. A IA poupa o tempo de edição, não substitui a filmagem.
- Gerar vídeo com IA serve para o resto: um fundo animado para um anúncio de evento, uma transição, uma ilustração de uma ideia (“o verão chegou”), uma fotografia sua posta em movimento.
O que a IA ainda faz mal no vídeo gerado: texto dentro do vídeo, mãos, comida que “muda” de um segundo para o outro e pormenores do produto. É o mesmo problema das imagens, mas em movimento.
Ferramentas para editar vídeos com IA
| Ferramenta | O que faz bem | Português | Preço |
|---|---|---|---|
| CapCut | Legendas automáticas, cortes, modelos para Reels e TikTok, música | Teste com o seu sotaque | Gratuito; o plano Pro tem preço na aplicação, que varia por país (não confirmámos o valor em euros) |
| Google Vids (Google Workspace) | Montar vídeos com modelos, narração por IA, clipes gerados por IA | Teste com o seu sotaque | Incluído no Workspace: Business Starter cerca de 6,16 €, Business Standard cerca de 12,33 € por utilizador por mês, anual, sem IVA |
| Canva | Juntar vídeo, texto e cores da marca, legendas | Teste com o seu sotaque | Gratuito com limites de IA; preço dos planos pagos na página do Canva |
| Descript | Editar o vídeo apagando palavras na transcrição, tirar silêncios e “hum” | Só português do Brasil, segundo a Descript | Hobbyist: cerca de 14,09 € por mês (anual) ou cerca de 21,14 € (mensal) |
A página da Descript não diz se o preço inclui impostos.
CapCut: o mais usado para Reels e TikTok
O CapCut, da mesma empresa do TikTok, edita no telemóvel, no navegador e no computador. As funções úteis são as legendas automáticas, o recorte para vertical e os modelos prontos. Segundo a ajuda do CapCut, o plano gratuito exporta sem marca de água se não usar modelos nem elementos pagos e apagar o clipe final com o logótipo; o 4K e a geração por IA pedem o plano Pro.
Dois cuidados. Nem todos os materiais do CapCut servem para uso comercial: o acordo de licença separa os de uso pessoal dos de “uso duplo”, que admitem um uso comercial limitado. E, na versão dos termos que consultámos, quem carrega conteúdo dá ao CapCut uma licença ampla, mundial e perpétua sobre ele; pense nisso antes de carregar vídeos com clientes.
Google Vids: incluído para quem já paga Google Workspace
Se a empresa tem um plano Business do Google Workspace, o Google Vids já está pago. Monta vídeos a partir de modelos, acrescenta narração por IA e gera clipes curtos: segundo a Google, até 200 segundos por mês no Business Starter e 500 no Standard e no Plus. O administrador pode desligar estas funções.
Canva e Descript
O Canva serve a quem já faz lá os cartazes: junta o vídeo filmado com as cores da marca e legendas. O Descript trata o vídeo como um documento (apaga uma frase da transcrição e o corte é feito no vídeo), ótimo para quem fala para a câmara, mas a lista oficial de línguas só inclui o português do Brasil e o plano gratuito exporta em 720p.
Reveja sempre as legendas. Nenhuma destas ferramentas garante português de Portugal: o texto pode sair com grafia do Brasil, nomes de pratos trocados ou preços errados.
Ferramentas para criar vídeos com IA a partir de texto
| Ferramenta | O que gera | Limites | Preço |
|---|---|---|---|
| Gemini (Google Workspace Business Standard ou Plus) | Vídeos a partir de texto ou imagens | Até 3 vídeos por dia com o Veo 3.1 Lite | Incluído (cerca de 12,33 € por utilizador por mês, anual, sem IVA, no Standard) |
| Gemini e Google Flow (conta pessoal com Google AI Pro) | Clipes de 4 a 10 segundos (Veo 3.1 e Gemini Omni) | 1000 créditos do Flow por mês, além de 50 por dia para todos | 21,99 € por mês na página portuguesa da Google |
| Runway | Clipes com o Gen-4.5, o Seedance 2.0 e outros modelos | Standard: 625 créditos por mês; o Gen-4.5 gasta 60 créditos por 5 segundos | Standard: cerca de 10,57 € por mês (anual) ou cerca de 13,21 € (mensal); gratuito com 125 créditos únicos |
| CapCut | Vídeos a partir de um guião com o Seedance 2.5 | Depende do plano | Dentro dos planos do CapCut |
A página da Runway não diz se o preço inclui impostos. O plano Google AI Pro é para contas pessoais; a Google tem o Gemini Enterprise e o Workspace para contas profissionais.
Google: Gemini, Vids e Flow
Na aplicação Gemini, a Google usa agora o Gemini Omni para gerar vídeos: descreve-se o vídeo, juntam-se até 5 imagens e escolhe-se o formato (horizontal por defeito; para Reels, peça vertical). Pode pedir também o som. É preciso ter um plano Google AI ou uma licença Workspace elegível e ter pelo menos 18 anos. Nas contas Workspace, a tabela da Google dá até 3 vídeos por dia com o Veo 3.1 Lite no Business Standard e no Plus; no Business Starter, a geração de vídeo fica pelo Google Vids.
O Google Flow é o estúdio de vídeo da Google para quem quer mais controlo (primeira e última imagem do clipe, cenas encadeadas) e está disponível em Portugal. Os clipes têm 4, 6 ou 8 segundos com o Veo 3.1 e até 10 segundos com o Gemini Omni Flash. Duas limitações na Europa: segundo a Google, editar vídeos carregados por si e usar avatares não está disponível no Espaço Económico Europeu.
Runway
A Runway junta vários modelos no mesmo sítio, incluindo o Seedance 2.0 (da ByteDance, a dona do TikTok e do CapCut). Funciona por créditos: o plano Standard dá 625 por mês, sem marca de água; um clipe de 5 segundos com o Gen-4.5 gasta 60 créditos e os modelos Seedance gastam mais.
E o Sora, o Kling e o Hailuo?
A OpenAI descontinuou a aplicação e o site do Sora em abril de 2026, por isso já não é opção. O Kling (da Kuaishou) e o Hailuo (da MiniMax) são muito falados, mas não conseguimos confirmar nas páginas oficiais os preços em euros nem as condições para empresas na UE. Para uma PME, as opções acima chegam.
Quanto custa um vídeo gerado: um exemplo
Exemplo ilustrativo (não é um caso real): um alojamento local quer 4 clipes de 5 segundos por mês para abrir os seus Reels (o nascer do sol numa praia genérica, chávenas de café a fumegar). Usa a Runway Standard com pagamento mensal, cerca de 13,21 €, e o modelo Gen-4.5.
| Cálculo | Valor |
|---|---|
| Créditos por clipe de 5 segundos | 60 |
| Clipes possíveis com 625 créditos | 10 |
| Custo por clipe gerado | cerca de 1,27 € |
| Se precisar de 2 tentativas por clipe aproveitável | cerca de 2,54 € por clipe |
| 4 clipes aproveitáveis por mês | 8 tentativas, cabe no plano |
Se a empresa já tem Google Workspace Business Standard, os 500 segundos por mês do Vids e os 3 vídeos por dia no Gemini chegam para isto sem custo adicional. O custo real está no tempo: escrever o pedido, ver o resultado, tentar outra vez.
O que diz a lei: música, consentimento e AI Act
Música: use a biblioteca comercial
É aqui que mais PME se enganam. As diretrizes de música da Meta dizem que usar música para fins comerciais ou não pessoais é proibido sem as licenças adequadas. Uma conta de empresa não deve pôr “a música que está a dar” num Reel.
- Instagram e Facebook: use a Sound Collection da Meta (música e efeitos sonoros sem direitos a pagar, para usar nas duas redes) ou música em domínio público.
- TikTok: segundo o TikTok, as empresas não podem usar a biblioteca geral de música para fins comerciais e devem usar a Commercial Music Library, com músicas já autorizadas para uso comercial.
- CapCut: só os sons e modelos de uso comercial (ver acima).
- Música gerada por IA: o Google Vids e o Gemini geram música; leia os termos antes de a usar num anúncio.
Quem aparece no vídeo: peça autorização
O artigo 79.º do Código Civil diz que o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou lançado no comércio sem o seu consentimento. E a imagem de uma pessoa identificável é um dado pessoal para o RGPD. Na prática:
- Colaboradores: peça autorização por escrito para aparecerem nos vídeos da empresa, explique onde vão ser publicados e aceite um “não” sem consequências. A pessoa pode mudar de ideias; nesse caso, deixe de usar os vídeos novos com ela.
- Clientes: filme de forma a que não sejam reconhecíveis (mãos, costas, mesas vazias) ou peça autorização a quem aparece em destaque. Evite filmar crianças.
- Câmaras de videovigilância: não as use para fazer vídeos. O artigo 28.º, n.º 4, da Lei n.º 58/2019 diz que as imagens gravadas por estes sistemas só podem ser usadas no processo penal.
- Vídeos com caras em ferramentas de IA: carregue-os só em contas empresariais, nunca em contas pessoais gratuitas. O tema está desenvolvido em IA e RGPD numa PME.
AI Act: quando tem de dizer que o vídeo foi feito com IA
As regras são as mesmas que explicámos para as imagens. Desde 2 de agosto de 2026, o artigo 50.º, n.º 4, do Regulamento (UE) 2024/1689 (o AI Act) obriga quem publica um deepfake a dizer que foi gerado ou manipulado por IA. Deepfake, aqui, é um vídeo que se parece com pessoas, objetos, sítios ou acontecimentos reais e que pode passar por autêntico.
Segundo a Comissão Europeia, a indicação tem de ser percetível sem ferramentas especiais (uma etiqueta visível ou um aviso falado), o mais tardar no primeiro contacto com o vídeo. Edições normais, como ajustar o fundo ou acrescentar efeitos, em princípio não a exigem; em obras claramente artísticas, basta uma indicação discreta.
| Vídeo | Precisa de indicação? |
|---|---|
| Vídeo real do prato, cortado e legendado com IA | Em princípio, não |
| Clipe gerado de uma praia, de um quarto ou de uma pessoa que parece real | Sim |
| Um colaborador “a falar” com uma voz ou uma cara geradas | Sim |
As próprias redes têm ferramentas para isto. O Instagram mostra a etiqueta “AI info” quando deteta sinais de IA ou quando quem publica o indica. O TikTok pede que se assinale conteúdo gerado por IA com imagens, áudio ou vídeo realistas e tem uma etiqueta própria nas opções da publicação. A forma mais simples de cumprir: ativar a etiqueta da rede e escrever “Vídeo criado com IA” na legenda. Para ver que outras regras se aplicam à sua empresa, use a calculadora que regras de IA se aplicam.
Este artigo não é aconselhamento jurídico. Num caso concreto, fale com um advogado.
Uma rotina semanal para quem só tem um telemóvel
Exemplo de rotina para o dono de um café, de um alojamento ou de uma loja, com cerca de uma hora e meia por semana:
- Segunda, 15 minutos: escolher três vídeos. Um do produto (o prato da semana, a peça nova), um do espaço ou dos bastidores (a esplanada a abrir, a cozinha a preparar), um de serviço (como se chega, o que inclui o pequeno-almoço). Peça ao assistente de IA que já usa três ideias de abertura para cada um.
- Terça ou quarta, 20 minutos: filmar. Telemóvel na vertical, luz natural, planos curtos de 3 a 5 segundos, sem clientes reconhecíveis. Filme mais do que precisa.
- Quinta, 30 minutos: editar. No CapCut, no Vids ou no Canva: cortar, legendas automáticas, revisão das legendas, música da biblioteca comercial. Se quiser um clipe gerado para a abertura, é aqui que o faz.
- Sexta: publicar. Escreva a legenda (o guia de IA no marketing da PME tem prompts para isso), ative a etiqueta de IA se usou um clipe gerado realista, publique no Instagram e no TikTok.
- Domingo, 10 minutos: ver o que funcionou. Qual dos três teve mais visualizações até ao fim? Repita esse tipo na semana seguinte.
Mais ideias para o seu setor estão em IA num restaurante, café ou alojamento local e nas páginas de restauração e turismo e de comércio. Se também quer narração, veja voz artificial em português de Portugal.
Riscos que convém conhecer
- Mostrar o que não existe. Regra da casa: o ambiente pode ser gerado, o produto e o espaço não.
- Textos errados. Preços, alergénios e horários escrevem-se à mão, nunca se confiam à IA.
- Dependência de uma ferramenta. Guarde os vídeos originais e os pedidos que funcionam numa pasta da empresa.
O que fazer esta semana
Em menos de uma hora:
- Filme com o telemóvel, na vertical, 30 segundos do produto ou do prato que mais vende.
- Abra o CapCut (gratuito) ou o Google Vids, se já tem Workspace, corte o vídeo para 15 segundos e gere as legendas automáticas.
- Leia as legendas palavra a palavra e corrija o que saiu em português do Brasil.
- Escolha a música na biblioteca comercial do Instagram ou do TikTok e publique.
- Imprima uma folha de autorização simples para a equipa assinar antes do próximo vídeo em que apareçam.
Preços e funcionalidades verificados em outubro de 2026. Valores convertidos para euros ao câmbio de referência do BCE de 30 de setembro de 2026.
Fontes
- CapCut: acordo de licença dos materiais da plataforma
- CapCut: termos de serviço
- CapCut: exportar vídeos sem marca de água
- CapCut: porque aparece o pedido para comprar o CapCut Pro
- CapCut: gerador de vídeo com IA (Seedance 2.5)
- Descript: página de preços
- Descript: línguas suportadas na transcrição
- Google: gerar vídeos com a aplicação Gemini
- Google: planos Google AI em Portugal
- Google: funções do Gemini no Google Vids por plano
- Google Workspace: comparar as edições Business
- Google Flow: modelos e funções suportadas
- Google Flow: créditos
- Google Flow: países e funções restritas
- Runway: página de preços
- OpenAI: resposta do apoio ao cliente sobre o fim do Sora, fórum de programadores
- Meta: diretrizes de música
- Meta: música em vídeos no Facebook e no Instagram
- Meta: como identifica conteúdo gerado por IA
- TikTok: Commercial Music Library
- TikTok: etiquetas para conteúdo gerado por IA
- Código Civil, artigo 79.º (direito à imagem), PGDL
- Lei n.º 58/2019, artigo 28.º, PGDL
- Comissão Europeia: obrigações de transparência do artigo 50.º do AI Act
- Regulamento (UE) 2024/1689 (AI Act), EUR-Lex
- BCE: taxas de câmbio de referência do euro
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