A IA nos seguros já serve a um escritório pequeno de mediação, e não só às seguradoras. Um mediador de seguros ou um intermediário de crédito pode usá-la para ler apólices, IPID e simulações e pô-las num quadro comparativo, preparar a proposta para o cliente, lembrar renovações, montar a lista de documentos de um sinistro, redigir respostas a emails e mensagens de WhatsApp, resumir reuniões e pedir os documentos de identificação do cliente. O que não pode fazer é decidir por si: a recomendação, as exigências e necessidades do cliente e a análise de crédito ficam com uma pessoa registada, porque é isso que a lei exige. Para começar chega um assistente de IA numa conta empresarial, a partir de cerca de 18 € por utilizador por mês, sem IVA.
Este guia é para mediadores, corretores pequenos e intermediários de crédito. Não é aconselhamento jurídico. Para outros artigos sobre escritórios, veja a página de serviços profissionais.
Onde um escritório de mediação perde tempo
O trabalho que não é estar com o cliente costuma ser este:
- Comparar propostas: três simulações de seguradoras diferentes, em PDF, cada uma com a sua ordem de coberturas, franquias e exclusões.
- Explicar ao cliente: passar essa comparação para uma página que ele perceba.
- Renovações: saber que apólices vencem no próximo mês, quais tiveram agravamento de prémio e a quem convém ligar.
- Sinistros: pedir participação, fotografias, orçamentos, relatórios e voltar a pedir o que faltou.
- Mensagens: emails e WhatsApp com as mesmas perguntas.
- Crédito: juntar recibos de vencimento, declaração de IRS, mapa de responsabilidades e documentos de identificação antes de enviar o processo aos bancos.
É tudo texto e documentos, onde a IA generativa trabalha melhor. Para estimar o tempo que recupera, use a calculadora de poupança com automação.
O que a IA nos seguros e no crédito faz bem (e o que fica consigo)
| Tarefa | A IA faz | Fica com o mediador |
|---|---|---|
| Ler apólices, IPID e simulações | Extrai coberturas, capitais, franquias, exclusões e prémio para uma tabela | Conferir cada número com o documento |
| Proposta comparativa | Rascunho em linguagem simples | Recomendação e razões, assinadas |
| Renovações | Lista de vencimentos, rascunho do aviso | Decidir o que propor a cada cliente |
| Sinistros | Lista de documentos por tipo de sinistro, pedidos ao cliente | Participação, contacto com a seguradora |
| Emails e WhatsApp | Rascunhos de resposta | Tudo o que seja coberturas de um caso concreto |
| Reuniões | Resumo e próximos passos | Registo das exigências e necessidades |
| Documentos de crédito e identificação | Lista do que falta, pedidos ao cliente | Avaliar a situação financeira, escolher o banco |
A regra: a IA prepara, o mediador decide e assina. A IA erra números e inventa coberturas, por isso tudo o que chega ao cliente é conferido com o documento original.
Ler apólices e simulações e preparar a proposta
É a tarefa que mais rende. Carrega-se o IPID e as condições de cada simulação e pede-se um quadro com as mesmas linhas para todas. O IPID, o documento normalizado de informação sobre o produto, é obrigatório nos seguros Não Vida (artigo 33.º do regime jurídico da distribuição de seguros, aprovado pela Lei n.º 7/2019) e tem sempre a mesma estrutura, o que ajuda.
Um prompt (a instrução que se escreve à IA) para copiar, numa conta empresarial e sem nome nem NIF do cliente:
Compare as simulações de seguro em anexo para um cliente
particular. Responda em português de Portugal.
1. Faça uma tabela com uma coluna por seguradora e estas linhas:
prémio anual, fracionamento, coberturas incluídas, capitais,
franquias, principais exclusões, período de carência.
2. Use apenas o que está nos documentos. Ao lado de cada valor,
indique a página de onde o tirou.
3. Se um dado não estiver nos documentos, escreva
"FALTA CONFIRMAR" e não o estime.
4. No fim, liste as 3 diferenças mais importantes para um
cliente com estas necessidades: [descrever sem dados pessoais].
5. Não recomende nenhuma seguradora.
O ponto 5 é deliberado. A lei põe a recomendação nas mãos do mediador:
- Antes de qualquer contrato, o mediador tem de especificar as exigências e necessidades do cliente e as razões que nortearam a informação ou o aconselhamento dado (artigo 31.º, n.º 6, do regime aprovado pela Lei n.º 7/2019).
- Se presta aconselhamento, transmite uma recomendação personalizada, ajustada ao cliente e à complexidade do contrato (n.º 4). Se diz que o faz com base numa análise imparcial, tem de analisar um número suficientemente elevado e diversificado de contratos do mercado (n.º 5).
- Tem de agir no melhor interesse do cliente e informar “de modo correto e pormenorizado” sobre os contratos mais convenientes (artigo 30.º, n.º 1, alíneas a) e c)).
A IA monta o quadro e um rascunho da proposta. As exigências e necessidades e as razões da escolha são escritas ou revistas por si. O guia de propostas e orçamentos com IA tem modelos que se adaptam, e o de IA para documentos e contratos mostra como extrair dados de PDF sem erros.
Um cuidado de forma: a informação pré-contratual é prestada em papel ou, com escolha do cliente, noutro suporte duradouro (artigo 32.º). Uma mensagem de WhatsApp escrita pela IA não substitui esses documentos.
E no crédito?
O raciocínio é o mesmo. O Decreto-Lei n.º 81-C/2017 obriga o intermediário de crédito a basear a sua atividade nas informações sobre a situação financeira, os objetivos e as necessidades do consumidor (artigo 45.º, n.º 2). Quando presta serviços de consultoria, tem de avaliar a adequação dos contratos e entregar, em papel ou noutro suporte duradouro, um documento com as recomendações e a identificação do trabalhador responsável (artigo 66.º, n.º 1, alíneas c) e e)).
A IA pode pôr lado a lado as fichas de informação normalizada dos bancos (TAEG, spread, comissões, seguros associados) e resumi-las para o cliente. A avaliação de adequação e a recomendação têm nome e assinatura de uma pessoa.
Renovações, sinistros e mensagens
Renovações. Se o CRM (o programa onde guarda clientes, apólices e contactos) ou a folha de Excel tem as datas de vencimento, o Copilot no Excel ou o ChatGPT fazem a lista do mês, com as apólices em que o prémio subiu mais. Depois, a IA escreve um aviso por cliente, que o mediador revê. Os CRM com IA e o que custam estão comparados no guia de CRM com IA para PME.
Sinistros. A IA cria listas de verificação por tipo de sinistro (automóvel, multirriscos habitação, acidentes de trabalho) a partir das condições gerais e das instruções da seguradora, compara o que o cliente enviou com o que falta e redige o pedido. Assistir os contratos “correta e eficientemente” é um dever do mediador (artigo 24.º, n.º 1, alínea d)).
Emails e WhatsApp. A aplicação WhatsApp Business é gratuita e já tem mensagem de ausência e respostas rápidas. A IA entra a redigir respostas a perguntas frequentes (horários, documentos para um sinistro, como pagar). Duas regras: perguntas sobre se um caso concreto está coberto são respondidas por uma pessoa, e um chatbot (assistente de conversa automático) tem de se apresentar como tal, como exige o artigo 50.º do AI Act desde 2 de agosto de 2026. Mais ideias no guia de IA no apoio ao cliente.
Reuniões. O resumo de uma reunião com o cliente, feito pelo Copilot no Teams ou por uma ferramenta de transcrição, é um bom ponto de partida para o registo das exigências e necessidades. Avise o cliente antes de gravar. As opções estão no comparativo de ferramentas para transcrever reuniões.
Documentos do cliente: identificação e branqueamento de capitais
Os mediadores que trabalham o ramo Vida são entidades obrigadas da Lei n.º 83/2017, de prevenção do branqueamento de capitais (artigo 3.º, n.º 1, alínea k)), supervisionadas pela ASF (artigo 85.º). Nos outros ramos, o mediador tem na mesma o dever de diligenciar para prevenir declarações inexatas e situações que indiciem branqueamento (artigo 24.º, n.º 1, alínea e), do regime da distribuição de seguros).
Onde a IA ajuda: gerar a lista de documentos por tipo de cliente e de produto, verificar o que já entrou, preparar o pedido do que falta. Onde não deve entrar: guardar os documentos de identificação (ficam no arquivo do escritório, não numa conversa com a IA) e avaliar se uma operação é suspeita. Essa decisão é de uma pessoa.
Que regras se aplicam à IA nos seguros e no crédito?
Segredo profissional e RGPD
O mediador de seguros guarda segredo profissional (artigo 24.º, n.º 1, alínea f)), e os intermediários de crédito não vinculados também (artigo 63.º do Decreto-Lei n.º 81-C/2017). Colar uma apólice com nome e NIF numa conta gratuita de IA põe em risco esse dever e o RGPD.
A regra da casa: dados de clientes só em versões empresariais (ChatGPT Business, Microsoft 365 Copilot com conta da empresa, Gemini no Google Workspace), que segundo os fabricantes não usam os dados para treino, com acordo de tratamento de dados aceite e guardado. Os detalhes estão em IA e RGPD numa PME.
Dados de saúde: fora da IA generativa
Questionários clínicos de seguros de vida e saúde, relatórios médicos de um sinistro de acidentes pessoais ou de trabalho: são dados de saúde, uma categoria especial do artigo 9.º do RGPD, com regras mais apertadas. A recomendação prática para um escritório pequeno é não os pôr num assistente de IA de uso geral. Se precisar de ajuda com um documento destes, retire primeiro tudo o que identifica a pessoa, ou trate-o sem IA.
O AI Act: o que é alto risco no setor
O anexo III, ponto 5, do Regulamento (UE) 2024/1689 classifica como alto risco dois usos que tocam diretamente estes escritórios:
- sistemas para avaliar a solvabilidade de pessoas singulares ou definir a sua pontuação de crédito (com exceção da deteção de fraude financeira);
- sistemas para avaliação de risco e fixação de preços em relação a pessoas singulares, nos seguros de vida e de saúde.
Estas regras aplicam-se a partir de 2 de dezembro de 2027, data fixada pelo Digital Omnibus sobre IA (Regulamento (UE) 2026/1744). Quem usar um destes sistemas terá, entre outras coisas, de garantir supervisão humana e fazer uma avaliação de impacto sobre os direitos fundamentais antes de o pôr a funcionar (artigo 27.º). E atenção: pôr o ChatGPT a classificar clientes por risco de crédito pode fazer de si “fornecedor” de um sistema de alto risco (artigo 25.º).
Os usos deste guia (ler documentos, comparar, escrever, lembrar) não são alto risco. Mas aplica-se já a obrigação de literacia em IA do artigo 4.º: a equipa deve saber o que a ferramenta faz e onde erra. Para ver só o que se aplica ao seu escritório, responda às perguntas de que regras de IA se aplicam à sua empresa.
O que dizem a EIOPA e a ASF
A EIOPA, a autoridade europeia dos seguros, publicou a 6 de agosto de 2025 um parecer sobre governação e gestão de risco da IA. Abrange seguradoras e mediadores e não cria regras novas: explica como as atuais se aplicam à IA que não é proibida nem de alto risco, com uma abordagem proporcional (equidade, governação dos dados, registos, transparência, supervisão humana, robustez). Para sistemas com impacto baixo ou muito limitado nos clientes, diz que as expectativas dos supervisores são também muito limitadas.
A ASF incluiu no plano de atividades de 2025 o desenvolvimento de estudos de suporte a uma iniciativa regulatória sobre o uso de IA nos setores que supervisiona. Até 1 de outubro de 2026 não encontrámos uma norma da ASF específica sobre IA para mediadores. Vale a pena acompanhar o site da ASF.
Que ferramentas usar e quanto custa
A maioria dos escritórios já tem email da Microsoft ou da Google. O mais simples é começar por aí.
| Ferramenta | Para quê | Preço por utilizador por mês, sem IVA |
|---|---|---|
| Microsoft 365 Copilot para Empresas | Outlook, Word, Excel e Teams: resumos, rascunhos, tabelas de renovações | 18,20 € (anual) ou 21,84 € (mensal), além da licença do Microsoft 365 |
| ChatGPT Business | Comparar simulações em PDF, rascunhos de propostas e mensagens | cerca de 17,61 € (anual) ou cerca de 22,02 € (mensal), mínimo 2 utilizadores |
| WhatsApp Business (aplicação) | Mensagem de ausência, respostas rápidas | 0 € |
| CRM com IA | Clientes, apólices, vencimentos, histórico | de 0 € a cerca de 60 € na maioria das PME |
Exemplo, para um escritório de 3 pessoas que já usa Microsoft 365: 3 licenças do Copilot com pagamento anual custam 54,60 € por mês, sem IVA. Com o ChatGPT Business, cerca de 52,83 €. A comparação completa entre assistentes está em ChatGPT, Copilot, Gemini ou Claude na empresa.
Antes de ativar funções de IA no software de gestão de carteira ou nos portais das seguradoras, pergunte por escrito o que a IA faz, onde ficam os dados e se há acordo de tratamento de dados.
Plano de 30 dias
Semana 1: regras e conta.
- Escolha uma ferramenta empresarial e desative as contas pessoais para trabalho.
- Escreva uma política de uma página: o que nunca entra na IA (dados de saúde, documentos de identificação, NIF fora da ferramenta autorizada), quem revê o quê.
- Faça uma sessão de uma hora com a equipa e registe quem assistiu (artigo 4.º do AI Act).
Semana 2: comparações. 4. Pegue em três processos fechados e refaça o quadro comparativo com o prompt acima. 5. Compare com o que foi feito à mão: que erros a IA cometeu? Ajuste o prompt.
Semana 3: renovações e sinistros. 6. Exporte os vencimentos dos próximos 60 dias e peça à IA a lista priorizada e os rascunhos de aviso. 7. Crie listas de verificação para os três tipos de sinistro mais frequentes no escritório.
Semana 4: mensagens e balanço. 8. Configure a mensagem de ausência e 10 respostas rápidas no WhatsApp Business. 9. Guarde 5 modelos de email revistos (pedido de documentos, aviso de renovação, ponto de situação de sinistro). 10. Faça o balanço: quanto tempo levou cada tarefa antes e depois, e o que vale a pena manter.
O que fazer esta semana
Em menos de uma hora: escolha uma comparação que fez recentemente, retire nome, NIF e morada do cliente dos documentos, e cole as simulações numa conta empresarial de ChatGPT ou Copilot com o prompt deste guia. Confira o resultado contra os PDF. Se o quadro estiver certo em mais de metade das linhas à primeira, já tem um ponto de partida para a semana 2 do plano.
Preços e funcionalidades verificados em outubro de 2026. Valores convertidos para euros ao câmbio de referência do BCE de 30 de setembro de 2026.
Fontes
- Lei n.º 7/2019, regime jurídico da distribuição de seguros e de resseguros (Diário da República)
- Lei n.º 7/2019, versão consolidada (PGDL)
- Decreto-Lei n.º 81-C/2017, intermediários de crédito, versão consolidada (PGDL)
- Banco de Portugal: intermediários de crédito, principais deveres
- Lei n.º 83/2017, prevenção do branqueamento de capitais (PGDL)
- Regulamento (UE) 2016/679, RGPD (EUR-Lex)
- Regulamento (UE) 2024/1689, AI Act (EUR-Lex)
- Regulamento (UE) 2026/1744, Digital Omnibus sobre IA (EUR-Lex)
- AI Act Service Desk: anexo III
- AI Act Service Desk: artigo 27.º
- EIOPA: parecer sobre governação e gestão de risco da IA
- ASF: plano de atividades 2025, resumo
- Microsoft 365 Copilot: planos e preços para PME
- OpenAI: preços do ChatGPT Business
- BCE: taxas de câmbio de referência do euro
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